A psicanálise no agora: entre o digital, o social e o trauma que ainda insiste

A psicanálise não é um luxo do século passado

GM

10/26/20252 min read

Vivemos uma encruzilhada. A clínica psicanalítica clássica, centrada no divã, na escuta e no inconsciente, encontra hoje fronteiras que ampliam e ao mesmo tempo tensionam seus contornos. A realidade exige que pensemos: como a psicanálise se reinventa frente aos desafios digitais, às rupturas sociais e aos traumas coletivos que já não se escondem?

Primeiro, a dimensão digital. Em 2025, observa-se uma expansão das terapias online, do uso de plataformas e da integração de algo-imerso na clínica tradicional. Ferramentas de inteligência artificial, monitoramento de humor via apps, bots de apoio emocional emergem como parte da paisagem terapêutica. Esse movimento exige do analista uma reflexão profunda: qual seu lugar diante do digital? O inconsciente, a transferência, a escuta — toleram bem práticas híbridas? A resposta não é automática. A intricada ligação entre sujeito, tecnologia, linguagem e desejo requer que cada psicanalista redefina seus termos.

Segundo, o social. A psicanálise já não pode se fechar em gabinete ignorando o “fora”. A questão da diversidade, inclusão, gênero, raça aparecem cada vez mais como eixos irreversíveis. O que isso significa? Que a clínica deve se perguntar: quem chega até mim? com quais feridas simbólicas? quais exclusões sociais repercutem no que chamamos de sintoma? A escuta analítica não pode ignorar o contexto. Afinal, o sujeito se forma no lío, no vínculo, na cultura, na sociedade.

Terceiro, o trauma; individual e coletivo. O trauma hoje não é apenas o que se repete em segredo nos divãs privados, mas aquilo que ecoa na estrutura social, na cultura, nas instituições. O tema aparece em seminários e congressos como eixo central para 2025. Isso requer dos analistas coragem de olhar para o contemporâneo — para a violência, para o desempoderamento, para a precarização dos vínculos — e levar essas realidades dentro da escuta, sem reduzir tudo ao “mero sintoma individual”.

Então, onde colocar a aposta?

  • Aposto que a clínica que abraçar o híbrido — analógico + digital — terá vantagem real: não para substituir o escutar-ao-vivo, mas para integrá-lo de forma crítica.

  • Aposto que a clínica que se abrir ao “fora-do-divã” — ao social, ao racial, à diferença — se tornará relevante para um público que exige tratamento e sentido.

  • E aposto que a clínica que enfrentar o trauma coletivo será aquela capaz de produzir não só alívio, mas transformação simbólica.


Você, enquanto analista ou interessado, não pode esperar que o mundo avance e a psicanálise permaneça igual. O movimento está acontecendo — congressos, seminários, debates. É hora de posicionar-se pelo que ela pode ainda ser: uma prática ativa, visionária, inserida no contemporâneo.
Reflita: que tipo de consultório quero montar? Qual o diálogo que quero ter com o digital? Como recebo as questões de raça, gênero, tecnologia, trauma no meu espaço? Como transformo a escuta para algo que responda ao nosso tempo e não apenas repita o passado?

A psicanálise não é um luxo do século passado. É uma ferramenta para entender o sujeito, o vínculo, a linguagem, o desejo — e hoje isso tem que superar realidades novas: o digital, a diferença, o trauma coletivo. O amanhã da clínica está sendo escrito agora. Cabe a nós antecipá-lo, moldá-lo e torná-lo eficaz.